Compulsão Alimentar é doença?

Quando falamos em transtornos alimentares logo pensamos naquelas pessoas excessivamente magras que se veem gordas ou pessoas que usam de métodos não saudáveis para perder peso. Bom, mas o fato é que não só essas pessoas estão doentes. Existem também transtornos alimentares que causam a obesidade. Sim, ao contrário do que muitas pessoas pensam, a obesidade não é “preguiça de fazer exercício e vergonha na cara de não fechar a boca”. A obesidade está relacionada a questões emocionais e a alguns transtornos. Um dos transtornos mais conhecidos que levam à obesidade é justamente sobre o qual vou falar hoje: O Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (TCAP).

Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (TCAP)

            Esse transtorno não é novo, foi descrito pela primeira vez nos anos 1950. Mas só muito tempo depois, em 1994, é que ele foi realmente considerado uma doença e incluído no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM).

            O Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica, como o nome já diz, trata-se de episódios recorrentes de Compulsão Alimentar. Nesses episódios a pessoa ingere em um período determinado (normalmente com um máximo de 2 horas) uma quantidade de alimento muito maior do que outras pessoas consumiriam em condições semelhantes. Isso costuma vir acompanhado de uma sensação de falta de controle, ou seja, a pessoa sente que não consegue evitar comer, parar de comer ou controlar o quanto está ingerindo. Mesmo quando o indivíduo alega desistir de tentar se controlar entende-se que a falta de controle está presente.

            compulsao-alimentar-post-1Outras características dos episódios de compulsão alimentar são: a pessoa come muito rapidamente (mais do que o normal para ela); só consegue parar depois de sentir desconforto corporal por estar muito cheio; come grandes quantidades de alimento mesmo sem ter fome; come sozinho por vergonha das pessoas verem o quanto está comendo; sente-te desgostoso, triste ou muito culpado depois de comer.

            Esses episódios nem precisam ser tão frequentes para que a doença esteja presente. Apenas 1 episódio semanal já é o suficiente para ser considerado Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica de gravidade leve. As gravidades são:

  • Leve: 1 a 3 episódios de compulsão alimentar por semana.
  • Moderada: 4 a 7 episódios de compulsão alimentar por semana.
  • Grave: 8 a 13 episódios de compulsão alimentar por semana.
  • Extrema: 14 ou mais episódios de compulsão alimentar por semana.

            O tipo de alimento que é ingerido durante um episódio é indiferente e muda de pessoa para pessoa. A condição parece estar muito mais ligada a anormalidade na quantidade de alimento ingerido do que o desejo incontrolável por algum tipo de alimento específico.

O QUE CAUSA ISSO?

            Sabe-se que a compulsão alimentar costuma ser comum na família. Por isso entende-se que o ambiente e a genética podem ser fatores envolvidos. O transtorno costuma começar seu desenvolvimento durante a adolescência ou início da fase adulta. Mas não é impossível que comece antes ou depois disso.comer-noturno-post-1

            Além disso, algumas coisas podem ter uma característica disparadora, como problemas de relacionamento (tanto amorosos como familiares e sociais), acontecimentos estressantes, restrições dietéticas, sentimentos negativos relacionados ao próprio corpo, depressão, ansiedade e tédio. Isso porque nesses casos, a compulsão alimentar alivia temporariamente esses fatores. O problema é que o alívio dura pouco e a curto, médio e longo prazo surgem danos à saúde física e emocional.

            No que se refere a cultura, o diagnóstico é encontrado com mais frequência em países industrializados como o nosso, principalmente nos Estados Unidos. O transtorno tem frequência muito semelhante em homens e mulheres de quaisquer etnias. Mas costuma ser mais comum entre indivíduos que buscam tratamento para emagrecer do que na população em geral.

QUAIS SÃO AS CONSEQUÊNCIAS?

A primeira coisa a citar é que as pessoas acometidas sentem vergonha de seus problemas alimentares e se afastam ou não comem na frente dos outros para tentar esconder seus sintomas. O que faz a descoberta e a busca por ajuda ser muito mais difícil.

            compulsao-alimentar-post-2É bastante óbvio que esse transtorno alimentar faz mal à saúde e pode levar a obesidade. Mas é interessante citar que se comparados a indivíduos obesos de peso equivalente, mas que não possuem os episódios de compulsão, aqueles que apresentam os episódios de compulsão consomem mais calorias, mais alimentos prejudiciais e tem, com isso, prejuízos funcionais. Isso inclui, qualidade de vida inferior, maior sofrimento, maior risco de desenvolver transtornos psiquiátricos, problemas no desempenho de papéis sociais, insatisfação com a vida e com a saúde, além de, é claro, problemas com obesidade e saúde.

TRATAMENTO

            A boa notícia é que existe um tratamento. O melhor tratamento que se pode obter nesses casos é multiprofissional, envolvendo um médico, um psicólogo, um nutricionista e um personal trainer.

            Caso não seja possível se enquadrar nesse cenário mostra-se essencial o tratamento pelo menos com um nutricionista para adequar a alimentação, e com um psicólogo, para entender e trabalhar as causas dessa compulsão.

 

REFERÊNCIAS

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-V. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre: ARTMED, 5a. ed, 2014.

AZEVEDO, A. P. e colaboradores, Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica, 2008.

Sobre a autora

Priscilla Figueiredo

Priscilla Figueiredo é Psicóloga de orientação Psicanalítica graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e atua na área da saúde como psicóloga clínica. Para disseminar seu conhecimento, criou o Psicologia Para Curiosos e escreve artigos regularmente aqui no site.

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