Natural da idade ou Ansiedade de Separação?

Em algum momento de nossas vidas, todos nós passamos por certa angústia de nos vermos longes de nossos entes queridos e cuidadores, isso é normal e faz parte do desenvolvimento infantil. Porém, em alguns casos essa ansiedade é extrema e pode causar prejuízos que seguem até a vida adulta. Além disso, atualmente descobriu-se que não só as crianças sofrem disso, mas também os adultos. Se quiser entender mais sobre tudo isso, é só ler o post de hoje em que falei sobre isso.

Deficientes visuais e pessoas com pouco tempo para leitura (e qualquer outra pessoa que quiser) podem ouvir o áudio do texto no player abaixo.

Ansiedade de Separação

Transtornos de ansiedade não são nada incomuns na infância e juventude. Na verdade, é a psicopatologia mais comum nessas faixas etárias, com uma prevalência de até 25% mundialmente. O problema é que uma grande minoria recebe atenção e tratamento.

O Transtorno de Ansiedade de Separação é uma reação exagerada e anormal diante da separação (real ou imaginária) de um ente próximo, interferindo de forma relevante nas atividades diárias e no desenvolvimento. Além disso essa patologia, a médio prazo, causa sofrimento e outros prejuízos significativos.

Esse transtorno começa de forma prematura, as vezes com apenas meses de vida. Mas seu pico se dá, na maioria das vezes, entre os 7 e os 9 anos de idade. É o transtorno mais comum da infância, sendo o subclínico (não patológico ou preocupante) o mais frequente, com até 50% das crianças passando por isso. Com isso entendemos que os sintomas de ansiedade de separação são marcos comuns do crescimento, porém, algumas crianças (ou até adultos) não conseguem elaborar essa questão, transformando em patologia. Entretanto, por ser comum, o diagnóstico é bastante dificultado, uma vez que os cuidadores entendem como um sofrimento passageiro e não doloso.

O não tratamento durante a infância pode fazer com que o transtorno persista na vida adulta. A prevalência em adultos é alta, de 6%, sendo que grande parte desses casos pode se desenvolver depois da já adulto e não como uma herança da infância. Independentemente da idade de início, o transtorno limita interações em grupo, o que traz um significativo prejuízo social que pode levar a uma vida de isolamento. Além disso, o transtorno de ansiedade de separação é fator de risco para desenvolvimento de outros transtornos de ansiedade.

Sintomas e Diagnóstico

O TAS (transtorno de ansiedade de separação) apresenta grande sofrimento ou medo irreal e excessivo após a separação de entes próximos ou até mesmo do lar. São 3 as características principais desse transtorno:

  • Preocupação e medo excessivo e persistente antes e no momento da separação.
  • Alteração de comportamento e surgimento de sintomas somáticos (como febre, enjoo e etc) antes, durante e depois da separação como forma de evita-la.
  • Tentativas persistentes de evitar ou escapar da situação de separação.

A criança que sofre desse transtorno tem medo que algo aconteça com seus pais no sentido de separá-los eternamente (como morte, sumiço ou esquecimento). Teme ainda que ela mesma se perda, seja raptada ou morta caso ela esteja longe dos pais.

Os sintomas comportamentais incluem choro, agarramento aos pais, teimosia, reclamações persistentes quanto a separação e chamar pelos pais depois de eles terem saído. Os sintomas físicos somatizados são dores de cabeça, enjoos, dores abdominais, febre, tonturas, vertigens, dificuldade para dormir, câimbra ou dores musculares, palpitações, dor no peito e até desmaios.

Devido a esses sintomas físico relevantes, esse transtorno é uma grande causa de evasão escolar e de visitas frequentes ao médico ou hospital. Esses sintomas costumam aparecer somente em dias letivos e desaparecem assim que os pais decidem que a criança poderá ficar em casa.

Os momentos mais comuns para a aparição dos sintomas de ansiedade de separação são quando:

  • A criança é deixada na creche ou escolinha
  • Pega a van ou ônibus escolar
  • Os pais orientam ela a ir para a cama
  • É deixada em casa sob cuidados de babás ou semelhantes
  • Sai em viagem com amigos, como um acampamento.
  • Muda o ambiente familiar
  • Passa a noite na casa de amigos ou outros familiares
  • Os pais estão passando por separação ou divórcio.
  • Mudança de escola
  • Início de um novo semestre escolar
  • Mudança de amigos
  • Ser alvo de bullying
  • Sofrer alguma enfermidade médica

Possíveis Causas

Uma das principais razões para o desenvolvimento da ansiedade de separação é uma questão bastante instintiva. Quando o bebê nasce, ele precisa do outro para sobreviver e para se sentir integrado. A partir do momento que se inicia a transição para a autonomia, há um grande medo e insegurança quanto a sua capacidade de se manter vivo e bem. Porém, é claro que esse não é o único motivo, as causas são multifatoriais. Incluem questões biológicas, ambientais, culturais e psicológicas. Alguns deles são importantes que entremos em detalhes.

Nos fatores biológicos temos a herdabilidade. Estudos compravam que transtornos de ansiedade correm pela família, crianças com pais ansiosos tem 5 vezes mais chance de apresentar um transtorno de ansiedade. Há ainda a associação entre transtornos. Pais que sofrem síndrome do pânico apresentam mais chances de ter filhos com TAS. Além disso, mães que sofrem com a ansiedade de separação tem grandes chances de passar essa característica para o filho. Essa ansiedade materna e seus comportamentos influencia ainda a adaptação psicossocial e o desenvolvimento social da criança.ansiedade-de-separacao-post-2

Quanto aos fatores ambientais, temos como risco: baixo calor emocional dos pais; pais que desencorajam a autonomia da criança; pais super protetores; pais ansiosos; brigas severas entre os pais; separação ou divórcio dos pais; doença física de um dos pais; depressão em um dos pais; transtorno do pânico nos pais; experiências traumáticas precoces; eventos estressantes; envolvimento em um desastre ou crime maior; exposição à violência e agressividade; nascimento de um novo filho.

No que se refere ao comportamento da própria criança também há fatores que devem receber atenção: inibição comportamental da criança; baixa tolerância a humilhação; medo de falhar; depressão; sofrer bullying; falhar em apresentar níveis esperados em provas, esportes e outras atividades onde há expectativa parental.

Consequências

Existem diversas consequências que podem acompanhar a ansiedade de separação, em diversos níveis. Mas vamos conversar sobre os mais comuns ou relevantes.

É notável que o transtorno de ansiedade de separação influencia negativamente a adaptação psicossocial da criança e o seu desenvolvimento social. Crianças com TAS apresentam baixa competência social, apresentando isolamento e ansiedade em situações sociais

Crianças que tem mães com ansiedade de separação podem desenvolver uma vinculação insegura, devido a intrusividade com que a mãe, em sua ansiedade, trata seu filho(a). Essa intrusividade da mãe não promove a autonomia da criança, nem cria sentimentos de segurança e confiança, que são essenciais para a criança explorar o mundo. Sem essa confiança para explorar, a criança não desenvolve competências sociais para interagir com outras crianças.

Esse prejuízo em si já acarreta outro, que é a construção da identidade. Acontece que a interação com os pares surge como fundamental para o crescimento sócio afetivo e aptidões sociais da criança, pois é essa interação que promove a construção de uma identidade própria na criança. Porém, a criança com isolamento social se priva dessa vivência e consequentemente desse benefício essencial.

Além disso, a curto e longo prazo o transtorno causa sofrimento para a criança e até para os pais, e pode levar a desenvolver transtornos psiquiátricos na vida adulta, como por exemplo o transtorno do pânico ou agorafobia.

Prevenção

É importante que aqueles que trabalham ou convivem com crianças estejam atentos. Além de ser necessária a implementação de estratégias preventivas precoces em escolas e lugares de convívio infantil, para que a prevenção se faça eficaz.

ansiedade-de-separacao-post-3Os pais podem, desde quando o filho ainda é bebê, proporcionar doses homeopáticas de realidade, para que ele se estruture. A mãe pode, por exemplo, ir ao banheiro sozinha, depois tomar banho e assim por diante. É claro que não estamos falando de abandonar o filho e ignorar seu choro. Outra possibilidade é começar a deixar o bebê com familiares por alguns momentos desde cedo, para que tanto a mãe quanto o bebê se acostumem com a ausência um do outro.

É importante os pais não terem atitudes como sair escondido ou sem dar tchau para evitar a ansiedade da criança. Isso adia a resolução do processo de ansiedade de separação e abala a confiança que o filho tem nos pais, podendo inclusive piorar o transtorno, uma vez que a criança não tem confiança de que seus pais não irão sumir sem seu conhecimento.

Outro comportamento inadequado é adiar o processo de individuação, isto é, adiar a separação entre o filho e os pais. Isso priva a criança de viver fases importantes de seu desenvolvimento.

Tratamento

O tratamento deve ser feito tanto em casa quanto com a ajuda de profissionais. A psicoterapia é importante e o clínico deve usar a técnica terapêutica mais adequada à cada paciente e caso. Os pais, por sua vez, devem se manter calmos e tentar diminuir o próprio nível de ansiedade. Devem: transmitir confiança e uma rotina tranquila à criança, sem muitas grandes surpresas; ser compreensivos e carinhosos em momentos de ansiedade, como ao deixar o filho na escola; dar atenção à criança nos momentos em que estão juntos; e podem ler livros especializados em ansiedade infantil, mostrando para a criança durante a leitura que está tudo bem e que nada grave irá acontecer.

REFERÊNCIAS

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-V. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre: ARTMED, 5a. ed, 2014.

FIGUEROA, Ana et al. ANSIEDADE DE SEPARAÇÃO. 2015.

VERÍSSIMO, Manuela et al. Ansiedade de separação materna e adaptação psicossocial ao pré-escolar. Psicologia, Saúde & Doenças, p. 221-229, 2003.

Sobre a autora

Priscilla Figueiredo

Priscilla Figueiredo é Psicóloga de orientação Psicanalítica graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e atua na área da saúde como psicóloga clínica. Para disseminar seu conhecimento, criou o Psicologia Para Curiosos e escreve artigos regularmente aqui no site.

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