Seu ídolo já se apaixonou por você?

Quem nunca sonhou estar saindo com um ídolo ou ser seu objeto de amor, não é mesmo? Mas às vezes a coisa passa um pouco do sonho e passa a ser um transtorno grave. Estamos falando da Erotomania ou Síndrome de Clèrambault.

            A Erotomania é um transtorno no qual o paciente sofre delírios que o fazem ter a certeza que um indivíduo de altos padrões (sejam sociais, físicos, políticos ou intelectuais) está apaixonado por ele. O mais comum é que este “alvo apaixonado” seja um ator, cantor ou uma figura política importante e na maioria das vezes o paciente nunca nem conversou com a pessoa em questão. Os atingidos pelo transtorno são tanto homens quanto mulheres e não se sabe ao certo a causa da síndrome. Alguns estudos apontam que a privação sexual tem um papel importante nessa causalidade, mas fatores orgânicos e emocionais não são descartados.

            Há registro desses casos ainda na Grécia Antiga, relatados por Hipócrates e Plutarco. O primeiro registro psiquiátrico, ainda muito precário, data de 1623 e usava-se o termo “paranoia erótica” que depois foi substituído por Erotomania. Só em 1921 que um psiquiatra francês publicou estudos mais aprofundados sobre a temática e por isso a síndrome passou a ser conhecida também pelo seu nome, como Síndrome de Clérambault.

            Mas o que acontece afinal?

Os delírios fazem, basicamente, com que a pessoa tenha a convicção de que um indivíduo “importante” está secretamente apaixonado por ela. Então acredita que esse ser apaixonado passa a se comunicar de forma secreta, por sinais dos quais só ela é capaz de compreender. Muitas vezes o adoentado passa a perseguir a pessoa em questão, e mesmo que ela lhe diga que não se interessa nele, ele cria desculpas e razões que expliquem o fato desse amor não poder ser divulgado abertamente. Outra característica comum é acreditar que seu amor secreto já foi representado em músicas, novelas ou peças de teatro.

            Veja bem, não estamos falando aqui de uma pessoa que ama seu ídolo. Falamos de uma pessoa que acredita que seu ídolo A AMA (mesmo sem conhecê-la) e está mandando sinais secretos em suas aparições públicas para expressar seu amor. É possível ainda (porém menos comum) que o erotomaníaco não corresponda a esse amor que acredita que o “famoso” sente. Assim, a pessoa acha que um ator, por exemplo, vive lhe mandando sinais de seu amor e perseguindo-a, mas ela não o ama de volta.

Exemplos de caso

            Um exemplo de caso é o da Francesa de 53 anos que estava convencida de que o rei Jorge V estava apaixonado por ela. Por isso foi diversas vezes à Inglaterra e costumava ficar parada em frente ao Palácio Buckingham esperando por ele. Certa vez viu uma cortina se mexendo em uma das janelas do palácio e interpretou como sendo um sinal do rei, seu amado, para ela. Porém, acreditava que por esse amor ser impossível ele tentava sabotá-la em suas tentativas de permanecer na Inglaterra. Segundo ela, todos os habitantes de Londres sabiam do amor proibido do Rei, mas não havia o que ser feito. A francesa afirmou que o rei poderia até odiá-la e mantê-la longe, mas nunca esquecê-la, pois a amava.

            ErotomaniaAlguns casos foram mais divulgados, como o famoso caso de John Hinckley Jr., que tentou assassinar o então presidente Ronald Reagan, para que se tornasse uma figura pública e então pudesse assumir seu amor com a atriz Jodie Foster. Ou ainda Margaret Mary Ray, que relatou ter uma relação amorosa com David Latterman, que nem a conhecia. Há também o caso de uma paciente diagnosticada no Brasil. Uma mulher de 46 anos que afirmava ter ido quando adolescente ao médico por ter a vagina diferente do normal. A partir de então, a paciente alega que tal médico passou a ter uma obsessão por ela e a perseguir, passando com seu avião e helicóptero em cima de sua casa e vigiando-a. A paciente acredita ainda que a esposa do médico, enciumada por tal amor ardente, havia contratado pessoas para estuprá-la e depois matá-la.

A Erotomania é preocupante?

            A síndrome pode parecer “inofensiva” a primeira vista. Mas não é. Ela se associa a diversos transtornos mentais graves, como transtorno delirante persistente, esquizofrenias, transtorno afetivo bipolar e outros. Além disso, há um potencial considerável de comportamento violento e vingativo em pacientes erotomaníacos. Isso pode causar graves consequências forenses.

Em livro e na telona

            Outra curiosidade é que, apesar da Erotomania não ser tão conhecida fora da área da saúde mental, ela já foi retratada em meios de entretenimento. Em 1997 o escritor inglês Ian McEwan baseou seu romance “o fardo do amor” em um caso clínico homoerótico que havia sido publicado no British Journal of Psychiatry. Posteriormente esse romance homoafetivo baseado em fatos reais foi transformado em um filme longa metragem pelas mãos do diretor Roger Michell, em 2004.

            É importante citarmos que a síndrome tem sim tratamento e em suspeita deve-se procurar auxilio profissional. O tratamento é medicamentoso e psicoterapêutico e apresenta resultados significativos.

 

REFERÊNCIAS

CALIL, L. C.; TERRA, J. R. Síndrome de De Clèrambault: uma revisão bibliográfica. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 27, n. 2, p. 152-156, 2005.

CALIL, L. C.; TERRA, J. R.. Síndrome de De Clèrambault: segundo relato de caso em português. Rev. psiquiatr. Rio Gd. Sul,  Porto Alegre,  v. 27, n. 1, p. 82-84, 2005.

GRAMARY, A. A Sindrome de Clérambault Revisitada. Saúde Mental, v. 10, n. 2, 2008.

Sobre a autora

Priscilla Figueiredo

Priscilla Figueiredo é Psicóloga de orientação Psicanalítica graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e atua na área da saúde como psicóloga clínica. Para disseminar seu conhecimento, criou o Psicologia Para Curiosos e escreve artigos regularmente aqui no site.

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