A sociedade de robôs viciados em tragédia para sentir-se vivos (e o Ciclo de Coisas Boas)

Esse post é antes de tudo um desafio! Desafio que você compartilhe o post em sua rede social de escolha e use o espaço que lhe é dado para fazer um comentário com algo bom. Conte algo bom que você viu acontecer, que você fez ou fizeram para você ou até algo que você ouviu falar. Apenas compartilhe algo bom, vamos criar um Ciclo de Coisas Boas! Hoje é passado na TV cenas cada vez mais fortes, corpos, mortes, assassinatos, vemos e consumimos essas imagens repetidamente em todos os meios de comunicação social. Estamos recebendo uma enxurrada de coisas ruins e consumindo isso cada vez mais para sentirmo-nos vivos, mas podemos criar um espaço de compartilhamento de coisas boas e fazermos uso dessas coisas boas para ter essa sensação de nos sentirmos vivos. Vamos sensacionalizar coisas boas ao invés de só receber sensacionalismo de coisas ruins. Vamos espalhar coisas boas aos montes!

Deficientes visuais e pessoas com pouco tempo para leitura (e qualquer outra pessoa que quiser) podem ouvir o áudio do texto no player abaixo.

A sociedade de robôs viciados em tragédia para sentir-se vivos

Nós vivemos em uma sociedade que cada vez mais coisifica pessoas e ações. Somos tratados como robôs e treinados para assim agirmos durante toda a nossa vida. Não importa se estamos tristes, temos que levantar e ir trabalhar. Não importa se estamos com medo, temos que ir à escola. Não importa se não sabemos mais como, temos que cumprir nossas obrigações. Não importa se alguém ao seu lado está mal, você precisa pensar em você. Não importa se a rotina nos deixa ansiosos, temos que nos manter nela. Não importa se não temos tempo para viver e aproveitar a vida, temos que produzir enquanto estamos saudáveis. Não importa se essas obrigatoriedades estão nos deixando doentes, temos que fazer tudo isso e muito mais, pois é assim que funciona, assim que tem que ser. Não importa se o ser humano ao seu lado sofre, você precisa cuidar da sua vida, pois ninguém fará o mesmo por você. Mas, se eu não ajudo ninguém porque ninguém me ajuda, como começa esse ciclo? Eu tenho que focar em cuidar da minha vida para fazer ela melhor, mas… espera! Na minha vida eu tenho que ignorar como eu mesmo me sinto e produzir, então qual é o propósito de tudo isso, afinal?

No meio de tudo isso viramos robôs, máquinas que não podem ter sentimentos que atrapalhem suas metas, produções. O maior problema de negligenciar nosso lado humano é que isso não acarreta só um problema, mas muitos. Primeiramente estamos parando de olhar uns para os outros. O ser humano é em sua essência um ser que cuida, que vive em grupos. Nós somos a espécie mais e por mais tempo dependente depois de o nascimento. Até a adolescência, pelo menos, temos que ter alguém que cuide de nós, caso contrário morremos. Porque então depois desse período ninguém mais importa fora você mesmo? Fala-se tanto do instinto do ser humano de se proteger, mas nosso instinto real é proteger o nosso grupo, o nosso bando, nossa tribo. Uma tribo se defende e ataca outra tribo, e não seus próprios membros. Quando criamos uma grande sociedade decidimos ser uma grande e organizada tribo, para que fosse melhor para todos. Mas em algum momento nesse processo passamos a pensar que nossa tribo somos apenas nós mesmos.

Sem esse olhar cuidadoso, delicado, compreensivo para com o outro e sem receber isso em troca, vamos adoecendo, nos tornando menos humanos e mais animais solitários que se sentem atacados e atacam no mínimo sinal de perigo. Quer prova disso? Pense em como reagem as pessoas próximas de você quando você tenta apontar algum erro construtivamente, essas pessoas se defendem e se justificam imediatamente, não é mesmo? Quando algo polêmico entra em pauta, não há discussão e esclarecimento de pontos e pensamentos, não tentamos entender o lado do outro e quem sabe compreender e evoluirmos, como é necessário. Há uma guerra de textões de ambos os lados para se provar que está certo, para na nossa “sociedade evoluída” ganhar a luta, que é feita através de caracteres e não mais nos punhos como nos primórdios, quando não éramos evoluídos… mas, pera! Na verdade, há luta sendo feita.

E veja, não estou dizendo que assuntos não devem ser discutidos, alguns assuntos têm SIM que ser discutidos incansavelmente até que se mude comportamentos antigos e opressores incrustrados em nossa sociedade. Mas isso deve ser feito com respeito. Criou-se uma realidade em que não há mais espaço para erros, somos nós por nós mesmos e por isso não podemos falhar, temos que nos defender a todo custo. As pessoas não colocam “a mão na massa” para defender uma pessoa ou os direitos de uma minoria se isso não as afeta diretamente. Há uma repulsa em defender os outros caso isso não seja em benefício próprio. Isso é saudável?

Além dessa desumanização que nos transforma em animais não humanos, há ainda a sensação de não vida. O ser humano sente-se vivo através de seus sentimentos, principalmente, sejam os bons ou os ruins, e de seus desejos. Quando vivemos toda uma vida agindo e sendo tratados como robôs, sem importar nossos desejos e sentimentos, acabamos não nos sentindo mais vivos.  Com isso, ficamos sedentos por qualquer coisa que nos faça sentir vivos, só por mais um momentinho, como drogaditos ansiando por sua droga. Falando em drogas, muitas vezes são elas que fazem esse papel de simular a sensação de vida. Outras vezes é a agressão, a violência. Mas é claro que há aqueles que não recorrem ao álcool, drogas ou a violência. Só que esses também precisam dessa dose diária de se sentir vivo, como eles fazem? Atualmente, a maioria das pessoas recorre as tragédias e notícias ruins. Ver uma tragédia que aconteceu com outros, como o avião da chapecoense, saber detalhes da chacina de campinas na virada do ano, buscar notícias e conversar com todos sobre o ataque na Turquia. Tudo isso são as doses diárias da “droga” da tragédia, do drama, para se sentir vivo.

Tudo isso é consumido de forma excessiva e a mídia se aproveita descaradamente disso. Hoje é passado na TV cenas cada vez mais fortes, corpos, mortes, assassinatos, vemos e consumimos essas imagens repetidamente em todos os meios de comunicação social. A mídia torce o pano de uma tragédia para aproveitar até a última gota de audiência em cima disso. A tragédia de avião com o time foi noticiada todos os dias de forma sensacionalista durante pelo menos um mês. Claro que muitos estavam realmente entristecidos com o ocorrido e queriam saber notícias. O problema é a forma com que isso foi feito, houve uma grande exposição das vítimas e familiares, mostrou-se os últimos momentos das pessoas em vida, familiares chorando em cima do caixão e os que sobreviveram não tiveram tempo para elaborar o ocorrido, foram expostos a entrevistas e relatos do que aconteceu aos montes. O velório grandioso foi feito coletivamente para a mídia e organizações e não para os familiares e amigos em sofrimento. Tudo foi noticiado de maneira mercadológica e não humana. Ainda hoje há eventualmente um sensacionalismo novo em cima disso, uma pontinha da droga que dá para aproveitar no desespero até aparecer uma droga/notícia mais forte. O problema é que essa exposição excessiva que estamos tendo à nossa “droga”, faz com que nosso corpo se adapte, assim como qualquer corpo se adapta a qualquer droga. E aí, para termos aquela sensação boa de viver, temos que usar doses cada vez maiores, em intervalos de tempo cada vez menores. Isso cria tal efeito que chega um momento que as “pequenas tragédias” não nos fazem mais efeito e aí passamos a tratar como banalidade. Não choca mais uma tragédia que tirou a vida de 10 ou 12 pessoas, um homem ser espancado até a morte, uma mulher ser abusada, um homossexual ser assassinado apenas por sua orientação sexual ou um marido que mata a esposa no que é chamado de crime passional. Isso é comentado nas redes sociais sem qualquer respeito ou humanidade, apenas na tentativa de ganhar o argumento ou defender aquilo que te favorece. Ah, para nos chocar agora tem que ser uma dose grande, uma grande tragédia… o resto? Ah, deixa para lá, a gente aceita! É nesse comportamento automático que entramos que vamos aceitando coisas cada vez mais absurdas e nos acostumando a elas, afinal, a gente vê isso na tv e na internet 24h por dia, não é mais incomum. E aí há cada vez mais há espaço para que ações grotescas como essa sejam feitas.

Estamos em um ciclo vicioso e precisamos da nossa dose diária de nos sentirmos vivos. Parece que não tem saída, não é? Tem! Há um outro tipo de droga que podemos e DEVEMOS usar para sentirmos vivos, aliás, estamos precisando. Coisas BOAS! É uma droga tão efetiva quanto a outra, só não é tão usada porque é mais cara, cara porque exige que estejamos vulneráveis, numa posição em que podemos ser taxados de bobos, de… otimistas. Além de ser cara, é uma droga que está escassa, difícil de achar por aí. Ela não se compra tão fácil, exige que nós compartilhemos com os outros as coisas boas que vimos ou ouvimos. Mas é necessário que tenhamos uma forma de poder usufruir dos benefícios das coisas boas.

CICLO DE COISAS BOAS (#CicloDeCoisasBoas)

Por isso esse post é antes de tudo um desafio e um convite. É importante para cada um de nós e para todos nós como um coletivo que tenhamos um local de acesso a coisas boas. Então iremos CRIAR ESSE LOCAL NÓS MESMOS! Ao invés de buscarmos notícias ruins, tragédias e ações horríveis, busquemos, compartilhemos e discutamos sobre coisas BOAS.

O desafio e convite é: Compartilhe esse post em sua rede social de preferência e no espaço para escrever um comentário seu, CONTE UMA COISA BOA! Não necessariamente um comentário bom sobre o texto, conte uma coisa boa que você fez, que fizeram para você, algo que vivenciou, ouviu alguém contar ou viu acontecer. Qualquer coisa boa! E se quiser, convide amigos para fazer o mesmo, criando um ciclo. Não se esqueça de usar a hashtag #CicloDeCoisasBoas, para que todos possam ver as coisas boas que temos a contar. Assim, todos aqueles que tiverem acesso a isso vão aproveitar a dose de sentir-se vivo através de algo bom e não mais precisarão “da dose” através da exposição a coisas ruins que dessensibilizam, que criam um ambiente hostil.

Sei que propor isso pode não ser tão efetivo quanto compartilhar algo ruim, que incita os outros a atacarem como defesa e cria um ódio que se espalha rapidamente e espalha junto o conteúdo compartilhado. Mas é um começo, vai ser bom para as pessoas que participarem e tudo que é grandioso começa de algo pequeno. Mesmo que seja grandioso apenas para os que se envolverem. Então, conto com vocês e estou ansiosa para saber as coisas boas que temos para compartilhar, mas estão guardadas em segredo!

Sobre a autora

Priscilla Figueiredo

Priscilla Figueiredo é Psicóloga de orientação Psicanalítica graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e atua na área da saúde como psicóloga clínica. Para disseminar seu conhecimento, criou o Psicologia Para Curiosos e escreve artigos regularmente aqui no site.

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